segunda-feira, 26 de março de 2007


Teteca com a palavra:


O Márcio e a Márcia


Antes de contar as estórias da galera lá de casa, acho que tenho de falar um pouco dos meus pais, afinal, tudo começou com o encontro deles. Acho que tem um dedinho de São Francisco de Assis.

O Márcio é leonino com a lua em libra, tem 35 anos, é avesso a badalações, um cara racional e caladão, que adora revistas de eletrônica e é , ou foi, evangélico. Ele trabalha numa grande empresa de telecomunicações, e sempre gostou de animais, mas nunca os recolhia, apesar de morar em casa, até encontrar a minha mãe. Aí, não parou mais.

A Márcia é libriana com lua em leão, adora uma festa, é muito emocional e falante, adora ler romances, livros de reiki, cromoterapia, radiestesia, apometria e o que mais cair na mão dela, e é espiritualista (eu entendi que é o que a gente diz quando não sabe bem o que é em termos de religião, mas acredita profundamente em Deus).

Ela é nutricionista especializada em plantas medicinais, atende no consultório, dá aulas de fitoterapia e terapia nutricional e cursos práticos de manipulação de plantas medicinais, é sanitarista no Estado e faz trabalho voluntário( esse é para pessoas) numa Farmacinha Comunitária de Fitoterápicos lá no Lami . Sempre recolheu animaizinhos, mesmo morando em apartamento, deixando a minha avó doida.

Um dia, essas pessoas tão diferentes se encontraram na internet. Ou melhor, meu pai a localizou num programa de mensagens instantâneas e eles começaram a conversar. E conversaram por um ano, até que a minha mãe quebrou o pé e ficou um tempo sem se conectar, pois o pé inchava e ela não tinha posição para ficar. Aí ele telefonou para ela(ela achou a voz liiinda) e veio buscá-la para passear. No Pampa Safári... Isso foi em 1998.

Em 1999 eu apareci. Três anos depois eles casaram. Mais um ano e tivemos que ir morar no sítio, pois já havia o Felpudo, o Nick, a Gatinha....Hoje somos 15 peludos, fora os que já foram adotados e os que foram encaminhados das ruas diretamente para outros locais de ajuda.Antes que alguém pergunte, eles não são de uma ONG, mas algumas ONGs, como a Bicho de Rua e a Duas Mãos Quatro patas, 'as vezes nos ajuda com castração a baixo custo.

Todos os valores saem do bolso deles. Aí vocês pensa: tem louco para tudo! Graças a Deus, porque se não fossem pessoas como eles, o que seria de seres como nós? 'As vezes minha vó diz: mas minha filha, já chega, são muitos, pare de procurar.

Mas nós não procuramos , mãe - ela diz. Eles é que nos encontram.

Aí, você pode querer saber o que faz alguém fazer isso, se além de não ganhar nada, ainda gasta do seu. E eles dizem que o ganho é diferente, que é uma sensação maravilhosa, ver a gente ir erguendo a cabeça, tirar o rabo do meio das pernas e ir ganhando saúde e dignidade após chegarmos doentes, com os olhos vazios de tanto sofrimento e falta de amor. E depois, estamos com os olhos brilhantes, o rabinho balançando de alegria, cheios de confiança e energia para a vida .

Às vezes, deitada na minha caminha quente, de barriga bem cheia e ganhando um afago nas orelhas, fico pensando nos outros, e são tantos, por aí, andando diariamente pelas ruas, passando pelas pessoas, sem serem vistos realmente. Naquele cachorro magro e de olhar perdido,que fica em frente à escola, perto da carrocinha de cachorro quente, no gato revirando o lixo à noite, no cavalo maltratado pelo carroceiro, obrigado a carregar um peso muito acima da sua capacidade, e sem comer a dias.

Diariamente, são tantos cachorrinhos e gatinhos nascendo, alguns atirados no lixo, outros sobrevivendo sem nem ter a possibilidade de descobrir a vida. O Márcio e a Márcia acreditam que o mundo pode ser melhor, para todos os seres. Porque somos todos filhos de Deus, e temos o direito a sermos felizes em nossa passagem pela terra. E essa fé é que os leva a fazer o que fazem.

Agora, me diz: Deus não tinha um plano quando juntou estes dois?

Nenhum comentário: